O início já vai a meio

Apr 1, 2024

Desculpa a longa mensagem, mas preciso de contar isto a alguém. Estou a tentar seguir o fio da memória e sair deste labirinto mental em que caí ontem. Sinto-me emaranhada num início in media res, indecisa sobre o que precipitou os acontecimentos das últimas 24 horas, a sentir que estou já no meio de uma coisa qualquer que não consigo identificar.

Acho que tudo começou no meio de livros, na biblioteca de Setúbal, no andar de cima. Estava a entregar uns quantos exemplares, atrasada, como sempre, quando recebi uma mensagem da minha chefe. «Oh dear, I’ll be so late!» era a legenda de um meme com um coelho branco. A mania da mulher em mandar mensagens subliminares…

Enquanto aguardava que a funcionária da biblioteca concluísse o meticuloso processo de entrega dos livros, fui à janela do salão de leitura a espreitar o meu carro, que tinha arriscado deixar defronte da biblioteca sem bilhete e sem conseguir ativar a aplicação de estacionamento. E certo como o pão com manteiga cai com o lado barrado no chão, lá estava o canalha do fiscal a passar uma multa!

«Está tudo aí, tenho de ir, depois venho buscar os talões dos outros livros!», disparei já a correr para fora do salão, tão rápida que nem dei tempo para um protesto dos leitores assustados na sala de leitura, nem consegui parar a tempo, já no topo das escadas para o andar térreo, para evitar colidir com um homem de mão engessada ao peito. Qualquer que tenha sido o acidente que lhe afetou o braço, não lhe tirou a capacidade de praguejar em voz alta.

«Mil perdões!»

«Mil… Mas isso são maneiras de andar numa biblioteca?! Deve vir da província!»

Prossegui a marcha, atirando sobre o ombro as minhas desculpas.

«Eu vou saber quem você é e vai ficar suspensa de entrar na biblioteca!», ameaçou-me, a ver-me descer freneticamente. «Está a ouvir-me??»

Precipitei-me para a saída, bloqueada por duas mulheres à conversa paradas no átrio da biblioteca. Pensei conseguir esgueirar-me a passo de corrida entre elas para chegar ao botão de abertura da porta de vidro da entrada principal. Nisto, uma delas ergueu um dos braços para vestir um casaco. Para evitar dar um encontrão, girei sobre mim própria ao passar pelas suas costas, mas arranquei-lhe o casaco no processo, projetando-o no chão. A outra mulher pegou na peça de roupa, fez um sorriso de escárnio e ofereceu o casaco de volta à mulher.

«Aqui tens o teu casaco, Xana, mas acho que lhe caiu um “t” do Vuitton…»

A mulher envermelhou-se de raiva como se fosse cuspir fogo na minha cara, mas da boca dela saíram apenas novas acusações de falta de civismo. «Não sabe abrir os olhos??»

Olhei para o casaco no chão, irritada com o tom de voz da mulher. «Vejo muito bem. Pelos vistos, bem melhor do você…». Virei costas e prossegui em direção ao botão para abrir a porta.

«Eu vou queixar-me das suas maneiras! Não volta a pôr os pés nesta biblioteca», ouvi gritar já no exterior.

O fiscal lá estava, dobrado a mirar a matrícula do meu carro.

«Desculpe, este é o meu carro. Não tinha moedas para pôr no parquímetro.»

Mirou-me com aquele sorriso dos estronços quando pensam estar a “dominar a cena”.

«E a aplicação?»

«Estava bloqueada, não arrancou.»

«Se calhar não está bem instalada.» disse, com um sorriso que progrediu imbecilmente para os lados da face. «Se me der o seu número de telemóvel, posso enviar-lhe as instruções de instalação…»

Olhava para mim, seguro na sua pose de anúncio de desodorizante com o corte de cabelo à jogador da bola.

«Prefiro a multa, se faz favor. E rápido, estou com pressa.»

Amuado, voltou a atenção para a máquina que tinha nas mãos, espetando os dedos nos botões como se o registo eficiente da matrícula dependesse da pressão aplicada. Um homem de livros debaixo do braço, também saído da biblioteca, aproximou-se e senti a necessidade de partilhar em voz alta um protesto sobre a injustiça de que estava a ser alvo.

«Não percebo porque é que não há um estacionamento rotativo para a biblioteca. Há tantas facilidades para outros serviços, porque não aqui?», disse, a aguardar por um aceno de concordância por parte do outro homem, que agora reconhecia ter estado também no salão de leitura a selecionar livros momentos antes. «E aposto que há aí gente que estaciona o carro para fazer compras na baixa e não paga. Estacionam aqui em frente da biblioteca, não pagam, nem usam a biblioteca, como esse aí, por exemplo, que também não tem bilhete.»

O fiscal olhou para o carro do lado.

«Por acaso, este também não pagou. Já lhe trato da saúde.»

O homem com os livros na mão atirou-me uma expressão de desdém.

«Era preciso fazer isso? Ajudou a restabelecer o seu equilíbrio emocional, o seu sentido de justiça? Ainda não superou as práticas do jardim de infância?»

Fiquei calada, incapaz de encontrar qualquer justificação.

Peguei na multa despachada pelo fiscal com um frio «Faça favor» e preparei-me para um daqueles dias que cheiram mal à distância.

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Avisos à navegação

O conteúdo desta publicação é ficcional. As personagens apresentadas são ficcionalizações de figuras reais, pelo que as leitoras não devem assumir que os dados apresentados correspondem a factos reais. O objetivo didático é tentar transmitir algumas das  suas ideias e dos seus conceitos num contexto ficcionalizado e lúdico.