Desculpa, recebi uma chamada da minha chefe. Quer falar comigo, provavelmente para me despedir. É que ontem, depois de ela me mandar a mensagem, acabei por não ir para o trabalho. Eu explico.
Depois de me passar a multa, o fiscal foi-se embora e eu pensei «Que se lixe… Se o dia começa desta maneira, tenho direito a um café e a um pastel de nata.» E lá fui à esplanada perto da biblioteca. Não estou a falar do antigo “Esperança” e do centro de lixo tóxico gastronómico que lá meteram, mas da outra pequenina, “A Toca”, mesmo na entrada do túnel que dá para a rua dos Mareantes, a da cuniculómana que obriga os empregados de mesa a vestirem-se de coelhos e que quer cortar a cabeça a todos políticos? A dona não regula bem, mas a esplanada é agradável. Lembras-te daquela vez em que ela espalhou a voz a calar as conversas de toda a gente a gritar ao marido «Só pedia a Deus que fosses um coelho!» e ninguém sabia se ela o pretendia assar ou se tinha tido outras expetativas quando o conheceu?!
Enfim, estava a preparar-me para me sentar, quando ouvi uma voz a chamar-me.
«Mademoiselle! Eh, Mademoiselle!»
Em vez de um turista à procura de direções, vi um homem a acenar-me sentado noutra mesa, acompanhado de uma mulher com um turbante que a fazia parecer ainda mais alta do que ele. Aproximei-me para perceber o que queriam.
«Deixou cair o seu livro ali.»
Corri para apanhar o fino volume de Camus que tinha acabado de levantar na biblioteca na ideia de o ler na minha varanda com o sol de soslaio a roçar-se pelas minhas pestanas. Regressei à mesa do casal para lhes agradecer.
«O que anda a ler, Mademoiselle? Deixe-me saber se preveni uma tragédia ou se cometi uma desgraça ainda maior.»
O sorriso encolhido entre os ombros fez-me lembrar o sapo Cocas, com óculos de lentes grossas e um olho estrábico.
«O Estrangeiro.»
«Apropriado para estes tempos de intolerância. O meu amigo Albert ficaria contente por saber que o livro dele ainda é lido.»
«Conhece o autor?»
Escapou-me a pergunta com uma certa admiração.
«Sim, claro.»
O homem olhou para a companheira, que fez um sinal de assentimento com a cabeça.
«Porque é que não se senta connosco? Estamos um pouco entediados um com o outro e uma companhia seria bem-vinda.», atalhou o homem.
A mulher de turbante, que até aí se mantinha imóvel, a medir-me com os olhos, sorriu num ligeiro assentimento com a cabeça.
«É a nossa convidada.», disse a mulher.
«Se quiser, prove um copo do belo vinho da sua região. E que ostenta o meu nome, por sinal. Apaixonei-me por este J.P. mesmo antes de o provar.»
«Como sempre, mon chéri. Você é capaz até de sustentar uma paixão sem nunca chegar a prová-la!»
Riu-se como quem clareia a garganta da rouquidão deixada pelo tabaco. Os dois estavam de cigarros acesos e tinham acumulado inúmeras beatas crucificadas violentamente contra o cinzeiro. Sentei-me por cordialidade e logo me apercebi de uma intensa curiosidade do outro lado da mesa.
«Fiquei curioso com a leitura do livro. Deixe-me perguntar-lhe uma coisa, Mademoiselle: está à procura de sentido ou sente apenas falta de emoções na vida? Ou talvez ambas? Isso seria uma calamité!»
A mulher de turbante deu-lhe uma cotovelada e sorriu-me. Hesitei em dar uma resposta.
«Receio que seja um pouco das duas. Mas não quero estar a importuná-los com a minha vida.»
«Ah, ma chérie, não nos incomoda de tous. A nossa existência tem sido povoada de momentos como este, em que guiamos jovens como a mademoiselle.»
O tom de charme ganhou um contorno mais metálico, como se fora um introito a cativar a minha atenção para uma pequena palestra.
«O sentido das nossas vidas não se deve basear na procura de uma essência. Os homens e as mulheres não podem ser compreendidos apenas em termos das categorias da biologia ou da psicologia, nem através de uma moral sobre a condição humana. Antes da essência vem a existência, definida pela nossa atitude face à nossa dimensão factual, ou seja, a nossa essência.»
«Bom, isso parece aquela história sobre quem apareceu primeiro, se foi o ovo ou a galinha…»
«Non, ma chérie, não se trata aqui de uma questão de causalidade. É algo mais simples do que isso. Causalidade é uma forma de determinismo – seja real ou construído nas nossas mentes –, mas aquilo que lhe proponho é transcender a sua factualidade, ir além daquilo que simplesmente você é em direção daquilo que pode ser: o factual emerge a partir daquilo que é possível; e o possível não é o resultado do determinismo ou da possibilidade lógica, mas sim o resultado das nossas escolhas e das nossas decisões.»
«Não somos o que dizemos, mas somos o que fazemos?»
«Oui, algo assim. Se pensar na sua identidade, ela pode ser descoberta se compreendermos os seus padrões de comportamento. Reconstruindo o mundo significante que o seu comportamento revela, é possível destapar o seu “projeto fundamental” que dá uma forma distinta à sua vida.»
E dizendo isso, destapou um pouco a gola da minha camisa com um gesto gentil. Puxei a gola para a posição inicial. Olhei para a mulher de turbante, à procura de uma reação, e ela sorriu-me de volta.
«Descobrir qual é o meu papel no mundo, é isso?»
«Non, non, non. Não se trata de desempenhar o nosso papel no mundo, mas sim de sermos autênticos. Se eu fizer uma coisa porque é a minha obrigação, faço-o porque é o meu dever, talvez por um imperativo moral. Contudo, a minha ação não é autêntica se eu o fizer apenas por dever ou porque é o que as pessoas devem fazer nessa situação. A ação só é autêntica quando eu escolho agir dessa forma, independentemente das sanções sociais, e me comprometo com essa escolha.»
«Como quem age por medo do castigo de Deus em vez de agir por verdadeira fé?»
«Deixemos a religião de parte, pensemos num exemplo mais interessante.»
Fez uma pausa e desceu o olhar para o meu peito. Olhei novamente para a mulher de turbante a ver se reagia e vi que também ela olhava para o meu peito.
«Imaginemos que a mademoiselle decidia colocar a sua… corporalidade… aham… ao serviço da comunidade. Como prostituta, poderia desempenhar o seu papel como uma obrigação ou, ao invés, poderia agir assim porque o tinha escolhido fazer.»
O olhar de surpresa que dirigi à mulher de turbante fê-la intervir.
«Você não vai usar a nossa convidada como exemplo…»
«Ah, oui, bien…»
Olhou em volta.
«Vejamos esse empregado de mesa. Tem gestos vivos e marcados, um tanto precisos demais, um pouco rápidos demais, e inclina-se com uma cortesia algo excessiva. A sua voz e os seus olhos exprimem um interesse talvez demasiado solícito pelo pedido do freguês. No final, volta-se, tentando imitar o rigor inflexível de sabe-se lá que autómato, a segurar a bandeja com uma espécie de temeridade de funâmbulo, num equilíbrio perpetuamente instável e perpetuamente interrompido, que ele restabelece perpetuamente com um ligeiro movimento do braço e da mão. Toda a sua conduta parece uma brincadeira. Empenha-se em encadear os seus movimentos como mecanismos regidos uns pelos outros. A sua mímica e a sua voz parecem mecanismos, e ele assume a presteza e a rapidez inexorável das coisas. Brinca e diverte-se. Mas brinca a quê? Não é preciso ser muito inteligente para descobrir: brinca a ser empregado de mesa.»
«Como uma criança a imitar o que vê dos adultos?»
«Aah… Oui, algo comme ça. A questão é: tenho a capacidade de me fazer a mim próprio ou sou apenas aquilo que sou em função dos papéis que estou a desempenhar? Alors, a autenticidade define a condição de me realizar a mim próprio. Ser autêntico é, assim, ser autónomo e não um autómato. Escolher resolutamente – engagé – um certo curso de ação, uma certa forma de ser no mundo.»
Puxou de um cigarro, acendeu um outro para a mulher e prosseguiu com uma baforada de fumo.
«Reconhecer isto provoca uma grande ansiedade, porque nos sentimos étrangers, como o personagem do seu livro, e vemos o absurdo no mundo, a sua falsidade.»
Os dois davam bafuradas a observar-me, como se esperassem uma resposta da minha parte. Senti que estava num exame de filosofia, à procura de algo para dizer.
«Como aquele miúdo, Holden Caulfield?»
«Oui, pode parecer um pouco uma birra de adolescente, mas é também uma atitude corajosa. Há uma angústia nessa desconexão que nos leva a sentir não termos um lugar ao qual possamos chamar casa. Desapossados dessa capacidade para nos situarmos, não conseguimos nomear as coisas e o sentido dado anteriormente aos objetos através de nomes e categorias começa a tornar-se absurdo.»
«No sentido de ilógico ou de disparatado?»
«Aucun des deux.»
Olhou em volta, como se à procura de uma ferramenta improvisada.
«Repare na raiz daquela árvore. Num mundo ordenado, eu chamo-lhe raiz e descrevo características que vejo. Se eu me desfocar da sua essência e vir naquilo a coisa que aquilo é, deixo de usar nomes que, na verdade, nada dizem sobre aquilo que é. O essencial passa a ser a contingência. O existente simplesmente é. E no exercício extremo de abandono de qualquer ato de nomear e de ordenar a essência, esta deixa de preceder a existência. A existência simplesmente é. O existente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por um encontro imprevisto. Isto é simultaneamente libertador e angustiante, uma desfamiliarização do mundo que fulmina o nosso âmago, provocando mais do que um desconforto, mais do que um enjoo, uma profunda náusea da consciência absurda da existência.»
E dizendo isto, soltou um sonoro peido que pôs a direito o olho estrábico por breves instantes, fazendo-o soltar umas sonoras gargalhas que atraíram a atenção dos que estavam por perto.
«Ça alors!», exclamou a mulher, rindo alto também.
«Náusea sem dúvida», pensei, a tentar conter a respiração. Que dieta de queijos faz parte das refeições deste homem?!
E mudando outra vez para um suave tom de charme, pousou a mão sobre a minha perna.
«Ah, mademoiselle, perdoe as minhas bêtises. Levei demasiado longe a minha ilustração da contingência da existência. A angústia que sente é um bom sinal, está no caminho da consciência da sua liberdade, que é algo que não agrada à maior parte das pessoas. Nós procuramos estabilidade e usamos a linguagem da liberdade para atos comezinhos, como a liberdade de soltar um traque no meio de uma esplanada.»
Riram-se os dois novamente.
«Acredite quando lhe digo que estamos condenados a ser livres, numa luta permanente entre liberdade e contingência. Mas muito mais há para dizer sobre essa liberdade, ma chérie, porque, como disse, não estamos sós no mundo e temos de viver uns com os outros. Às vezes por infelicidade, outras para nossa alegria. Por isso, deixe-me fazer um convite: venha connosco conhecer alguns dos nossos amigos expatriados neste seu magnífico país. Há um pequeno bar na rua aqui ao lado, o “Postigo dos Mareantes”. Pode provar deliciosos cocktails e deleitar-se com um jazz aprazível. E prometo que não solto mais contingências.»
O casal francês
Não cheguei a saber os seus nomes, mas o casal francês deixou um profunda impressão. A noção de que a existência precede a essência pareceu-me uma deliciosa reversão do idealismo platónico.
Homens e mulheres de nenhures
Uma canção que nasce de um diálogo de Lennon com ele próprio, a enfrentar um bloqueio de artistas, mas com um sentido que se estende à condição humana.
Jazzus!
Um concerto de Miles Davis? Em Setúbal? Só espero que ele toque “So what”. Um tema tão abstrato que comunica com precisão a insolência que, por vezes, falha na linguagem humana, até mesmo numa frase como “Atão, sóce?!”