Na taberna do Sr. Henrique

Apr 29, 2024

Primeiro dia após a partida e o plano da viagem já está em risco de ser alterado. Tudo correu bem até chegarmos ao porto da Baleeira, junto ao cabo de Sagres, às 9h30. Foram 93 milhas tranquilas que até deram para dormir profundamente. Quando estávamos a atracar, uma peça do motor avariou-se e foi preciso a ajuda de outra embarcação para conseguirmos amarrar a terra.

O único mecânico naval disponível na região é um holandês chamado Chris Huygens, um indivíduo alto com um nariz aquilino e uma cabeleira que faz lembrar o David Coverdale. Em menos de 5 minutos descobriu a avaria, mas a reparação só estará pronta depois de amanhã por ter sido necessário esperar por uma peça encomendada.

«Hei, vocês não querer estar sem motor no mar, certo? Esperar em Sagres, comer, beber e dormir. Depois de amanhã fazer a viagem, certo?»

O mestre que nos ajudou a atracar garantiu que o mecânico é competente. «Ele não fala lá muito bem português, desenrasca-se. Mas na mecânica, não há melhor. E arranja tudo. Se estiverem cá na próxima sexta, a primeira do mês, podem vê-lo no mercado mensal de Sagres. Está lá sempre com uma série de maquinetas, sobretudo relógios de pêndulo que ele compra e recupera.»

Almoçámos um arroz de marisco para criar memórias frescas da nossa comida portuguesa e fizemos uma nova verificação das condições do barco durante a tarde, enquanto o mecânico reparava o motor. No final do dia, abrimos umas cervejas e ficámos a conversar a bordo.

«Para onde ir?»

«Depois de amanhã? Santa Maria. Uma semana de viagem, se apanharmos bom vento.»

«Vocês marinheiros só pensar em vento, não dar atenção a ondas.»

«As ondas são boas para os surfistas. Você é surfista, não é?»

«É minha paixão. Não casado, não ter filhos.  Muitas vezes melancólico, mas as ondas ser minha companhia. Eu estudar ondas toda minha vida. As ondas estar em todo lado, no mar, no ar… A luz é onda também. Todos pensar que onda é coisa com uma direção, mas onda espalhar muitas direções, encontrar outras ondas e puf… umas com as outras…», fez um gesto de choque com as duas mãos e prosseguiu, quase soletrando as palavras como se as tivesse memorizado. «Interferência construtiva reforça onda, interferência destrutiva anula onda.»

«Tal como as pessoas», observou o capitão.

«Precisamente!», apontou o holandês com um grande sorriso. «Precisa saber que pessoas ser boa onda para ti, certo? É  meu princípio de vida, princípio de Huygens.» Deu uma longa gargalhada, como se tivesse percebido uma piada. «Por isso nunca casado.», lamentou com um encolher de ombros.

O holandês convidou-nos para bebermos um copo na taberna do Sr. Henrique, – lugar fácil de encontrar, numa transversal à Rua Comandante Matoso – e provarmos “o melhor pingo da região” (ao menos, não sugeriu uma bica e um queque como pequeno-almoço numa pastelaria…). É onde estou agora, a tentar escrever-te. O ruído à volta é imenso, com música a fazer saltar as mesas e gente a tentar cantar.

O holandês acabou de me perguntar se a música está muito alta e sugeriu-me que eu me sentasse noutra mesa. «Interferência destrutiva. Ali ondas sonoras anular e som mais baixo.», explicou e piscou-me o olho.

Há pouco, o Sr. Henrique, um sorumbático homem de bigode com um sombrero preto enorme, e o holandês subiram para uma mesa e cantaram “Here I go again” num espetáculo de se ver. A multidão aclamou-os, gritando «H2 Ooh! H2 Ooh!», numa provável referência ao dueto de karaoke Henrique e Huygens. Os dois estão completamente alterados. Saíram várias vezes até às traseiras para enrolarem uns cigarros. Um dos festivaleiros, já um pouco acelerado, revelou que o Sr. Henrique, além de gerir a taberna, têm uma escola de surf e dedica-se a fazer excursões até ao norte de Marrocos para comprar “produto”. «Chamam-lhe Henrique, o Navegador, mas não é por andar no mar, é porque anda sempre aos balanços.».

O capitão fez sinal para irmos, temos de descansar e levantar-nos cedo para preparar uma semana no mar. Já te disse que não há sinal dos outros tripulantes? Ainda temos essa para resolver amanhã, em vésperas da partida.

Sr. Henrique

Figura conhecida além das fronteiras da vila de Sagres, o Sr. Henrique divide-se entre os estudos da matéria naval e as viagens ao norte de África.

Chuva de lágrimas

Foram várias as canções interpretadas pelo duo Henrique & Huygens, mas as versões dos grandes êxitos dos Whitesnake foram as que entusiasmaram mais a audiência.

Huygens

O surfista alemão, especialista em ondas, é mais do que aquilo que aparenta (i.e. um guedelhudo parecido com o David Coverdale).

Taberna do Sr. Henrique

Avisos à navegação

O conteúdo desta publicação é ficcional. As personagens apresentadas são ficcionalizações de figuras reais, pelo que as leitoras não devem assumir que os dados apresentados correspondem a factos reais. O objetivo didático é tentar transmitir algumas das  suas ideias e dos seus conceitos num contexto ficcionalizado e lúdico.