A jornada da heroína

May 1, 2024

Sinto que agora a aventura verdadeiramente começa. Como no folhear das primeiras páginas de um romance, em que a mente analítica sustenta a leitura de cada frase a medir o potencial de interesse dos parágrafos e parágrafos que vêm a seguir, assim passei estes primeiros dias a tentar avaliar o sentido deste peculiar projeto. É um cálculo emotivo, se tal coisa existe, que procura estabelecer uma empatia com algo que não é mais do que expetativas baseadas em sensações construídas sobre alicerces de justificações amalgamadas. Não é para menos, pensando nos riscos inerentes a uma viagem com esta dimensão, mas a minha resistência a lançar-me neste desafio provinha do receio de um eventual divórcio após uma frustrante descoberta do esmorecimento da novidade dos espaços e dos elementos que os habitam, transformados numa rotina de gestos e palavras em dias sucessivamente indistintos. Como te disse, sinto que agora a aventura verdadeiramente começa porque abandonei os estorvos que limitavam o contacto com as emoções.

«É mais do que uma aventura, é a jornada do herói”, foi a reação do nosso primeiro tripulante convidado, José Campelo, à descrição feita pelo capitão da viagem à volta do mundo. Dono de um café em Vila do Porto, na ilha de Santa Maria, e colecionador de banda desenhada da Marvel e da DC, “Zé” Campelo estava no continente numa demanda de livros em segunda mão quando se inscreveu na página online do “Nómada” para experimentar um regresso a casa por mar.

«Eu tenho viajado por todo o mundo, todo o mundo mesmo. Já estive na Índia, no Japão, andei na América Latina, no Canadá e nos States– tenho lá família, claro – e da Europa nem falo. Até em África e não foi só nesses sítios de turismo, foi com as tribos tradicionais mesmo. E todas as histórias que ouvi contar, todos os mitos desses povos são idênticos na sua estrutura».

E com largos gestos circulares a marcarem longas distâncias no espaço e no tempo, descreveu o círculo que compõe a jornada do herói: a partida da sua terra natal após um chamamento para uma aventura, eventualmente com a assistência de alguém mais sábio que o orienta no caminho para uma terra que lhe é estranha; depois de passar por vários percalços, o herói enfrenta o seu grande obstáculo, entra primeiro numa crise, mas depois supera esse momento, por vezes através de um processo de morte e renascimento, supera o obstáculo e acede ao tesouro; por fim, o regresso à sua terra natal, em que o herói já não é a mesma pessoa que partiu e, face a essas mudanças, segue resoluções para mudar a sua vida anterior. «Esta será a vossa jornada e a vossa vida não será a mesma quando regressarem ao porto de partida».

«Ah, balelas». O prolongamento “sopinha de massa” da fricativa final gelou a expressão de apoteose de Zé Campelo como se uma gaivota tivesse descarregado das alturas uma mão-cheia de guano na sua cabeça.

«Desculpe?», exclamou Zé Campelo.

«Ba-le-las», repetiu Carlos Sage, um dos outros tripulantes convidados, um auditor financeiro enviado a Santa Maria para fazer o cálculo da instalação de um observatório espacial na ilha. «Aquilo que você fez foi uma generalização baseada numa observação subjetiva não quantificada. Quantas histórias é que você ouviu que se encaixam nesse modelo? E quantas é que ouviu que não se encaixam? Olhe, se quiser dou-lhe já uma. Você, que até coleciona livros de super-heróis, vai concordar que na maior parte dessas histórias não é o herói, mas sim a sociedade onde ele vive, quem sofre uma mudança e o herói é aquele que traz a sociedade de volta ao estado original. Até há uns livros sobre esse tema.» (noutra conversa, em esforço de memória, Sage lembrou-se dos nomes).

O debate entre os dois não parou a manhã inteira. Campelo fazia apelo a um inconsciente universal que une todos os seres humanos, Sage evocava a necessidade de provas e dados quantificáveis. «Isso tá tudo muito bem nas histórias da Carochinha, agora fazer afirmações científicas é diferente. Olhe, eu tenho uma coisa a que chamo o kit das balelas. Quando pego numa contabilidade, tenho um conjunto de perguntas para respostas objetivas. Não há cá balelas.»

Eu e o capitão ouvíamos, sentados no poço, olhos postos nas velas com o vento forte a impulsionar-nos rumo à Madeira (depois explico-te). Confesso que me senti dividida entre a perspetiva científica do Sage, um ideal de objetividade que nos liberta de charlatães, e a leitura mítica do Campelo, tão próxima da dimensão humana que parece escapar à causalidade mecânica de outras áreas do conhecimento. Promete ser uma jornada com muita animação entre estes dois.

 

José Campelo

Dono de um café em Vila do Porto (Santa Maria) e ávido colecionador de banda-desenhada, Zé Campelo é, acima de tudo, um estudioso do folclore dos super-heróis e da mitologia que os rodeia.

Podemos ser heróis

Criada por Bowie com Brian Eno, a canção tem sido interpretada por vários artistas, incluíndo David Fonseca e Rita Red Shoes. A versão dos Motorhead dá-lhe um peculiar significado. O tema original estará sempre colado a Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo

Carlos Sage

Um auditor financeiro com cabeça para calcular biliões de faturas e uma paixão por ciência, em particular por astronomia, resoluto em aplicar à contabilidade – e a outras áreas da vida – uma abordagem cientificamente cética.

Rumo aos Açores

Avisos à navegação

O conteúdo desta publicação é ficcional. As personagens apresentadas são ficcionalizações de figuras reais, pelo que as leitoras não devem assumir que os dados apresentados correspondem a factos reais. O objetivo didático é tentar transmitir algumas das  suas ideias e dos seus conceitos num contexto ficcionalizado e lúdico.