Heróis e heroínas

May 11, 2024

«A navegação marítima tem tanto de científica como de adivinhação». Este foi o meu desabafo ao avistarmos as luzes de Vila do Porto e, de imediato, fui repreendida.

«Tudo o que fizemos no nosso percurso poderia ser previsto se tivéssemos todos os elementos necessários para o cálculo», argumentou o Carlos Sage. Já não posso ouvir tanta objetividade científica! Eu sei, é injusto porque ele até é um tipo impecável, sobretudo se pensarmos que é auditor financeiro… Já sei, mais uma vez estou a ser injusta, agora em relação aos auditores, mas também não conheço nenhum que não veja apenas a rigidez das colunas e dos números.

Acho que este azedume é porque estou cansada e se estou a escrever a esta hora, ainda no mar, é porque sei que vou dormir muitas horas e não vou ter vontade de me sentar em frente de um computador tão cedo. Vou apenas ligar-me à internet e enviar-te as mensagens escritas a bordo nesta última semana.

São quatro da manhã e finalmente estamos a chegar. Passámos os dois últimos dias, mais de 120 milhas, a bolinar e a bolinar, com o vento a rondar e a trocar-nos as voltas. A temperatura não esteve desagradável, mas passámos boa parte do tempo sem sol e sem lua. Um isolamento completo que colocou cada um de nós a pensar em qualquer coisa que fosse com os pés em terra.

«Quero rever o último filme dos Vingadores, acho que é um excelente filme para concluir a saga», suspirou o Zé Campelo.

Filme pipoca para adolescentes, pensei. E de repente, dei por mim a participar na discussão. Mas tudo começou com uma longa discussão sobre o argumento, culminando na história da viagem no tempo do Capitão América.

«Se ele ficou no passado, então havia dois capitães durante algumas décadas.»

«E ele estava atrás de uma moita à espera para aparecer de bengala e sentar-se no banco, não é?»

Ninguém estava a levar a conversa muito a sério. Discussões sobre viagens no tempo a partir de filmes são divertidas e sem a intenção de estabelecer factos. E depois entornei-lhes o caldo.

«O que achei curioso foi o momento em que os senhores da Marvel, que eu imagino sempre escondidos nos seus gabinetes a projetarem as suas fantasias eróticas no papel, mostraram todas as heroínas a juntarem forças no combate ao exército de Thanos. É tão óbvia a intenção politicamente correta, sobretudo porque, mais ainda do que nos filmes, na banda desenhada as heroínas servem para dar um colorido sexual à cena até ao momento em que são postas num frigorífico como prato frio para a vingança dos heróis.»

«Há muitos momentos em que os heróis masculinos também dão colorido sexual aos filmes. Na verdade, se existe uma clara sensualização do corpo feminino, o mesmo se passa com o corpo masculino. Até digo mais: a representação do corpo masculino às vezes reduz os heróis a um saco de testosterona.», argumentou o capitão.

«Concordo, mas há três grandes diferenças entre os heróis e as heroínas. Primeiro, ao nível do protagonismo, as mulheres são secundarizadas. Reparem na Miss Marvel ou Capitão Marvel, que parece ser das criaturas mais poderosas daquele universo e cujo papel é reduzido por estar sempre ausente noutro sítio qualquer do universo. E no final do filme, é retirada de cena e atirada para o reino quântico. Ridículo! Mais valia mandarem-na para a cozinha tratar da loiça. Segundo, não há decisões cruciais tomadas por figuras femininas. A Viúva Negra funciona como uma espécie de gestora dos Vingadores, para não dizer secretária, durante os cinco anos após a Infinity War, mas quando regressam os eventos críticos, o Capitão América e o Homem de Ferro voltam a mandar em tudo. E por fim, a maioria das representações gráficas das heroínas na banda desenhada assemelha-se a poses de capas de revistas eróticas.»

Peguei num dos livros do Zé Campelo. «Conseguem imaginar esta imagem passada para o cinema? Qual era a atriz que iriam buscar? A Pamela Anderson?»

Enfim, estás a imaginar a cara de parvos daqueles homens. E depois o capitão sai-se com esta.

«Bom, vamos lá então entregar o leme à mulher que está a bordo à entrada do porto.»

«Isso é para rematar a conversa e pôr-me no lugar? Sabe bem que não tenho experiência. Um trapo molhado a cheirar a peixe atirado à cara é o que essa sugestão merece.»

«Não é preciso ser agressiva. A minha sugestão é começar a praticar sob a minha orientação. Afinal de contas, eu é que sou o capitão. E não é por ser homem, é porque o barco é meu.»

Só tenho vontade de meter o barco ao fundo para aprenderem. Tenho de ir, estão a chamar-me.

A iniciativa Hawkeye

Um projeto para corrigir as poses das personagens fortes femininas nas bandas desenhadas de super-heróis: substituir a personagem pelo Hawkeye a fazer a mesma coisa.

Women in the fridge

O termo “fridging” foi cunhado para explorar o tópico da violência sofrida por personagens femininas, sobretudo em tiras de super-heróis.

Heroínas e Feminismo

Podem aparecer mais em destaque e até podem parecer mais fortes, impulsionadas por uma 3.ª vaga de feminismo, mas as superheroínas ainda são um reflexo de décadas do machismo dominante.

Chegada a Vila do Porto

Avisos à navegação

O conteúdo desta publicação é ficcional. As personagens apresentadas são ficcionalizações de figuras reais, pelo que as leitoras não devem assumir que os dados apresentados correspondem a factos reais. O objetivo didático é tentar transmitir algumas das  suas ideias e dos seus conceitos num contexto ficcionalizado e lúdico.