Falar mareado

May 17, 2024

A jornada entre Santa Maria e o Faial está a ser tranquila como um passeio de fim de semana, e no percurso até agora temos tido vento calmo ao largo de 5 nós. As condições são as ideais para todos a bordo relaxarem e conversarem. Quando digo todos a bordo, refiro-me a apenas mais um tripulante além de eu própria e do capitão, mas uma personagem que vale por muitas e cuja forma peculiar de organizar o discurso deu o mesmo trabalho que tentar entender duas pessoas ao mesmo.

O nome do tripulante é Jules Verlan, intrépido explorador e jornalista da revista “Voyages Extraordinaires”. Só que para explorador enjoa muito facilmente no mar e quanto aos seus dotes como jornalista espero que os artigos tenham uma ordem discursiva com uma coesão diferente e uma coerência mais fácil de apreender. É que não conseguiu produzir um único enunciado na ordem normal de constituintes frásicos.

«San Michelle, este é o nome do meu barco, com dois mastros um veleiro que olhar demoradamente dá gosto.»

«E é lá que escreve todos os seus artigos?»

«Oui.»

«E não enjoa?» perguntou o capitão com um tom de incredulidade.

«Eh bien, c’est que em terra está o barco. Não o movem as ondas.»

«Não move com as ondas, hum? Está atascado?»

«Bon, é uma palavra dura atascado. Je prefiro com a terra comunhado.»

«Nunca ouvi essa do ‘comunhado’, mas hei de passá-la ao Beirão para a próxima que ele contar como ficou ‘comunhado’ nos baixios do rio Sado»

Sorte a dele ter o barco imóvel. Desde que deixámos a costa de Santa Maria, Verlin vomitou três vezes borda fora, mas parece ter muita prática porque ao se soerguer do mergulho na náusea não apresentou um único vestígio na barba.

«A bordo de um submarino vivi a mais difícil reportagem ao longo de 20 mil léguas a vomitar num balde.»

«Você deu a volta ao mundo a bordo de um submarino?»

«Non, a volta ao mundo noutra ocasião a fiz. Muito mais fácil foi, e mais rápido também, menos de três meses.»

«Ah, eu li essa reportagem! Mas não foi batido o recorde por uma norte-americana?»

«Ah, oui, mais… o primeiro eu fui. E o primeiro também fui na viagem em balão nos céus de cinco países. E nas entranhas do vulcão de Galipoli também fui pioneiro da sua exploração.» E depois suspirou. «Ah, vraiment, mes chers amis, a aventura maior é a do meu americano amigo Arthur. O que ele passou em duas reportagens foi contado, uma pelo meu amigo Edgar editada e outra na minha revista publicada. C’étais extraordinaire!»

Verlin é sócio de uma empresa de “aterradoras aventuras radicais” em conjunto com um americano chamado Edgar. Ainda não sei muito sobre esta empresa, ele não deu muitos pormenores, mas tempo temos para outros detalhaes sabermos com um dia mais pela frente até à Horta chegarmos, como diz o mestre Ioda.

Jules Verlan

Um aventureiro desejoso de se tornar marinheiro e com um estômago demasiado sensível às ondulações.

Tás a ceberper?

Os marginais e os jovens têm criado socioletos para ocultarem dos restantes falantes aquilo que está a ser comunicar. O Verlan é um dos mais famosos.

Prisencolinensinainciusol

A canção criada por Adriano Celentano para imitar o rock americano e mostrar como é que soa a língua inglesa para quem não sabe falar a língua tem sido alvo de inúmeras “traduções”

Rumo ao Faial

Avisos à navegação

O conteúdo desta publicação é ficcional. As personagens apresentadas são ficcionalizações de figuras reais, pelo que as leitoras não devem assumir que os dados apresentados correspondem a factos reais. O objetivo didático é tentar transmitir algumas das  suas ideias e dos seus conceitos num contexto ficcionalizado e lúdico.