Esta viagem de autodescoberta do Capitão Jackdaw é mais do que isso. Tenho quase a certeza de que há um plano secreto qualquer a marcar a nossa rota no mapa. Estava previsto seguirmos para as Caraíbas depois dos Açores e agora o nosso destino será Nova Escócia. Eu sei, saltamos da frigideira para o frigorífico… O estranho é a alteração da rota acontecer depois do encontro no Farol dos Capelinhos.
Como te disse ontem no SMS, não cheguei a apanhar muita coisa do encontro. Quando estava a aproximar-me, ouvi várias vozes. Falavam baixo, não em surdina, mas suficientemente baixo para não conseguir perceber o que diziam. Reconheci a voz do Capitão Nemo quando se exasperou e disse qualquer coisa sobre “perigo” e “trampa” e a última palavra que apanhei foi do Capitão Corto Maltese, mas não tenho a certeza: “Evolução” ou “Revolução”?… Digo-te que estes tipos estão a preparar alguma. Será na América?
Por pouco não era apanhada pelo Capitão Jackdaw. Percebi que alguém estava a sair e regressei rapidamente ao carro. Mal me sentei, vi o capitão a sair da penumbra.
«Tudo calmo?», perguntou-me ao sentar-se no lado do pendura.
«Sim, nada a assinalar»
Olhou para mim e fez um estranho sorriso. «Então vamos embora. Deve estar cansada de estar sentada aqui e precisa de andar um pouco para fazer circular o sangue. Esta é a noite mais curta do ano, por isso tem de ser aproveitada em todos os seus minutos. E os dias vão tornar-se mais curtos. O tempo vai ditar tudo, sempre o tempo.», disse já para si próprio.
Ainda dei várias olhadelas no retrovisor a tentar apanhar alguma coisa, mas nada. Regressámos à casa onde temos as nossas coisas e agora, ao raiar do dia, estamos de partida. Digo-te alguma coisa assim que souber mais detalhes sobre a nossa rota.
O casal francês
Não cheguei a saber os seus nomes, mas o casal francês deixou um profunda impressão. A noção de que a existência precede a essência pareceu-me uma deliciosa reversão do idealismo platónico.
Nem tudo chega às nossas mãos…
Pode ser uma canção sobre amor, política e drogas a marcar o final da década (foi lançada em 1969). Apesar do seu possível tom negativo de resignação, e mesmo que fiquemos com o que aquilo que nos calha, isso não significa que não tentemos ter aquilo que queremos.
O estranho estrangeiro
O outro é a fonte dos nossos medos, o inferno em potência, até permitirmos que deixe de ser um estrangeiro para nós.