Bisca sem trunfos

May 27, 2024

Não sei que espécie de feitiço sofri ou se alguém a bordo me deitou algo na comida, o certo é que dormi profundamente logo a seguir à última garfada do jantar, um resto do manjar do Peter Sport Café que consegui salvar dentro de uma caixa de takeaway. E como uma rainha, não só disfrutei, pelos padrões destas semanas no mar, de uma opípara ceia, mesmo que requentada, como também de um revigorante sono que ainda não conseguira ter a bordo. Sem dúvida, alguém deitou algo na comida ou na bebida.

Acordei somente quando nos estávamos a aproximar da ilha, a pouco mais de três milhas de distância, e mal tinha acabado de despregar as ramelas dos olhos com a ponta dos dedos vi imediatamente que tínhamos chegado a um enorme calhau batido pelas vagas do Atlântico no meio de nenhures…

Qualquer resquício de sono liquefez-se corpo abaixo ao nos aproximarmos do Porto da Casa, nome dado ao ancoradouro da ilha do Corvo, armado aos pés da vila num recanto mais doméstico da ilha, mas insuficientemente resguardado para proteger uma atracagem. Aos nos aproximarmos, parecia que as vagas ignoravam o comprimento reduzido da muralha e tomavam conta de toda a costa. Imagino que em dias de maior vendaval, com as vagas a empurrarem uma embarcação, seja possível entrar pelo Porto da Casa adentro e aterrar no aeroporto, a cerca de cem metros de distância. E, contudo, a ancoragem foi rápida e eficientemente realizada. Em dois tempos, eu, o capitão e o piloto lunático estávamos de pés assentes no molhe.

A ilha aparenta não ter uma única árvore e está coberta por uma erva tão macia que podíamos acreditar ser possível rebolar encosta abaixo, escondidos sob as mantas vegetais, sem um único “ai”. Há uma só encosta, onde foi plantada a Vila do Corvo, um pequeno labirinto de casas térreas e ruelas estreitas; o resto da ilha foi escarpado por um rude cutileiro  que não deixou uma única fajã, apenas pequenos amontoados dos escombros do seu trabalho de corte da pedra a formarem recantos a que só com generosidade se poderá chamar praias recônditas.

O capitão guiou-nos estrada acima, a única existente na ilha e que liga a vila ao topo da cratera chamada de “Caldeirão”, onde vive o tal ermita, entranhado no isolamento e na natureza. «Vamos aos Metralhas, precisamos de uma refeição de boas vindas», explicou-nos.

A entrada no espaço criou-me um certo desnorte: aqui estávamos no extremo mais remoto da Europa ocidental, numa ilha a meio caminho entre as duas costas do Atlântico Norte, e em lugar de uma taberna rústica preservada da erosão desde os tempos dos primeiros acostamentos, encontrei um snack-bar idêntico aos demais estabelecimentos que povoam as pequenas localidades por Portugal fora. Passámos junto da armação de alumínio a delimitar uma esplanada para manter o clima agreste da parte exterior com o habitual mobiliário de promoção oferecido pelos fornecedores de bebidas. No interior, os tradicionais eletrodomésticos dos pequenos cafés e as práticas mesas de madeira. Isto não é um sítio típico de turistas e duvido que haja muita gente de fora a visitar este local.

«Ninguém mete aqui os cotos», disse uma voz na única mesa ocupada do café. Por instantes fiquei sem reação, boca semiaberta a pensar que tinha pensado em voz alta sem querer, até perceber que o homem se dirigia aos outros dois companheiros com ele sentados, olhos indiferentes à tirada, concentrados no jogo. Na volta, são os Irmãos Metralha que dão nome ao snack-bar.

«Joga. Vais ver que ela vem, se calhar nem acabamos este jogo», disse um dos outros com ar de nórdico, demasiado alto para a mesa, a pele encarniçada pelo sol.

«Minha», rematou com brusquidão o terceiro.

«Estás com muita sorte, Gabiru», observou o nórdico, dirigindo-se à figura de cabeça pelada de costas para o canto da sala.

«Devias guardá-la para mais logo, vais precisar quando jogarmos com ela», disse o primeiro, trajado fora de moda com o peso negro do luto permanente de um cigano.

«Sempre a bardar, Bardão. Deixa-a vir», respondeu o Gabiru.

«Vives sempre nos sonhos. O nosso maior sonho é não perder essa partida, é não morrer», atalhou o homem de negro.

«Eu ganho-lhe», retorquiu mais alto o nórdico.

«Tu é mais xadrez. E talvez sueca. Agora, a bisca…»

«Regras diferentes, o mesmo jogo»

«Pois, talvez. És como o Gabiru, alienaste-te do mundo, vieste para esta curva do vento à procura de conhecimento, a ver se encontravas o transcendente na desolação. E estavas a contar com a ajuda daquele ermita metido lá em cima no meio do vazio do nada. Pois, encontraste o nada, a ausência de sentido, ou melhor, que o sentido da vida é a morte.»

«Diz o roto ao nu», interrompeu o Gabiru.

Sentámo-nos na mesa ao lado e o nosso movimento puxou a atenção dos jogadores da bisca.

O homem de negro olhou-nos fixamente e prosseguiu como se o café se tivesse tornado um palco improvisado de um drama em continua representação.

«Saiba a menina que aqui, nesta ilha, acabam as palavras, aqui acaba o mundo que conhecemos; aqui, neste tremendo isolamento, onde a vida artificial está reduzida ao mínimo, só as coisas eternas perduram. Não se pode fugir à monotonia da existência, à solidão que nos cerca, à sólida arquitetura dos montes que apertam e esmagam.».

O homem prosseguiu, pondo em mim os olhos de peixe das solitárias profundezas oceânicas, o bigode a esconder uma boca que se adivinhava melancólica. «Neste ermo, os homens suportam uma vida dura e monótona, fazendo todos os dias os mesmos gestos e repetindo sempre a mesma meia dúzia de palavras até à morte.» Alçou a orelha direita para o ar e sussurrou. «Ouço rondar o Tempo…»

«É o trator do Chico. Anda, joga», disse o nórdico. «A ver se acabamos o jogo antes que ela chegue. Essa é que é a partida que interessa.»

«O tempo sempre igual. Um minuto, um ano, um século. E esta humidade, o musgo…»

«Para de lamuriar, ao menos ainda não perdeste o jogo. O outro quinou lá no café da Samarra», suspirou o nórdico.

«De muito te serviu fugires para aqui. Estamos todos à espera da morte. A existência é monótona, o tempo chega para tudo, o tempo dura séculos e aqui estamos, enterrados em convenções, usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos, jogamos as mesmas cartas, fazemos as mesmas vazas…»

“Pior que sofrer – é não sofrer – é nunca mais sentir. É ter as órbitas vazias voltadas para o céu e nelas não se refletir a luz das estrelas», interrompeu o Gabiru.

“O pior mesmo é ir para a cova com a boca a saber a vulgaridade e a pó», concluiu. E pediu em voz alta «Venham lá mais três minis para limpar a garganta».

Com as minis dos jogadores chegou a nossa comida.

«Um delicioso hamburger vegetariano numa terra de carne e leite.», observou o homem do bigode triste. «Acho que também tenho apetite. Venha uma dose de húmus para mim, por favor.», pediu em voz alta.

Ficaram em silêncio o resto do tempo, debruçados no jogo de bisca que não parecia chegar ao fim, as cartas do baralho repostas num monte para uma partida de vazas repetidas pelos jogadores e no olhar a tristeza da premonição de que todos iriam perder no final.

Deixámos o café satisfeitos com a comida, mas algo deprimidos com a conversa do trio da bisca. A ilha é, de facto, um ermo no oceano, interessante para quem procura o isolamento.

«Fazemos uma visita ao ermita amanhã. Acho que todos gostaríamos de descansar um pouco o corpo.», disse o capitão.

«Eu sigo já para o Caldeirão, posso descansar lá», atalhou o piloto.

Despedimo-nos e descemos até ao centro da vila, para as acomodações que nos esperavam e onde pude escrever e enviar-te esta mensagem.

R. Bardão

Jornalista do continente, chegou à ilha para iniciar uma visita ao arquipélago dos Açores -pretendia escrever um livro de viagens precursor chamado As ilhas Desconhecidas – e nunca mais de lá saiu.

Covil de homens procurados

A canção da banda The Last Internationale veio à minha mente ao ver os homens a jogarem cartas no café e a pensar noutros que se refugiam na ilha do Corvo, em fuga de caçadores de recompensas ou talvez deles próprios.

O homem que prefere xadrez

O outro home que jogava cartas tinha chegado há 3 dias ao Corvo. Possivelmente, a julgar pela vestimenta descontextualizada, um assassino profissional à procura de refúgio

Ilha do Corvo

Avisos à navegação

O conteúdo desta publicação é ficcional. As personagens apresentadas são ficcionalizações de figuras reais, pelo que as leitoras não devem assumir que os dados apresentados correspondem a factos reais. O objetivo didático é tentar transmitir algumas das  suas ideias e dos seus conceitos num contexto ficcionalizado e lúdico.