Uma noite a deambular por esta ilha e sente-se o seu isolamento. Não se escuta o som de ninguém a regressar de algum lado ou a escapulir para um outro sítio, nenhum ressoar mecânico noturno a espalhar-se rente ao chão, nenhum eco distante de veículos em movimento. Apenas o bater inalterável, incessante e impiedoso das ondas num cerco apertado.
Ainda estou no processo de ambientação à banda sonora marinha e não conseguia dormir. O som do mar que conhecia era aquele murmurar pueril da ondulação feito pelas aplicações de smartphones para relaxar, mas a noite passada o meu quarto estava inundado pelo ressonar vibrante de um velho e gordo oceano. Saí para reduzir a tensão, distrair a mente e ver a paisagem noturna, a pensar que, se calhar, até me cruzava com alguém ou encontrava um estaminé aberto. Estava tudo fechado, mas perto do aeródromo, junto ao muro do cemitério, fui surpreendida pelo som de vozes numa conversa abafada. Ansiosa por perceber quem conversava em surdina e sobre o quê, não reparei num pedregulho e o meu pé resvalou, arrastando consigo o resto da perna e tombando o resto do meu corpo com a solenidade de uma sequoia. Quando me recompus do tombo, o capitão Jackdaw estava a estender uma mão para me ajudar a levantar.
«À procura da bomba de gasolina para comprar tabaco?»
«Não conseguia dormir com o barulho das ondas. E o capitão, anda à procura de uma alma perdida?»
«Aqui as almas não têm como se perder, dormem toda a noite.»
«Mas há mais gente acordada, que eu o ouvi a conversar com alguém.»
«Era o leiteiro a preparar-se para o dia.»
Senti que ele estava a esconder alguma coisa.
«Pobres vacas leiteiras, não têm alma, nem direito a uma noite de sono tranquilo.»
«Dormem durante o dia. E nós também vamos descansar até tarde. Partimos a meio da tarde, os novos tripulantes só estão livres depois do almoço.»
A identidade dos novos companheiros fez-me soltar uma flatulência verbal.
«Está visto que não gosta de gestores políticos.», observou o capitão.
A minha vontade era dizer que ficava na ilha e que lhes desejava um naufrágio feliz. Dez dias no mar na companhia de três gestores políticos, conselheiros ou lobistas, lobos disfarçados de ovelhinhas, gentinha abjeta, quase pior do que os políticos, sempre com pancadinhas mansas nas costas a confirmarem aos seus líderes que há sempre uma justificação para aquilo que estão a fazer. E o que fazem três conselheiros políticos numa ilha perdida no meio do oceano, perguntas tu?
«Vieram para um workshop com o Abelardo e agora vão seguir connosco para Boston.»
«Ah, é por causa deles que mudámos das Caraíbas para os States?»
«Não completamente, em parte.»
Três lobistas num barco? Parece mais o título de um livro de Jerome K. Jerome. E a fazerem um workshop numa pequena ilha longe de tudo no meio do Atlântico e agora seguem a bordo numa travessia oceânica com o capitão Jackdaw? Há demasiadas coincidências nisto tudo. O mais estranho é irmos para Boston, através do Atlântico-Norte, uma rota que muitos corvinos desaconselharam, avisando sobre as tempestades e as ondas gigantes. Pelo que percebi, a melhor rota de Leste para Oeste é mais a sul, da Madeira para as Caraíbas, passando eventualmente por Cabo Verde para quem preferir ventos mais fortes e uma paragem para comer uma cachupa. A rota do Norte serve para fazer o caminho inverso, sobretudo a partir de Abril, de Oeste para Leste, partindo das Caraíbas em direção aos Açores e depois rumo à Europa continental.
«Se só navegássemos com os ventos alísios, não comíamos bacalhau em Portugal. Assim, vai ter a oportunidade de provar um dos melhores pratos do mundo do fiel amigo.»
Com promessas de boa comida fechou-me a boca e virou costas. Regressámos às nossas acomodações, mas não consegui ter uma noite tranquila. Estou a enviar-te esta mensagem e sinto uma apreensão. Vou estar pelo menos 10 dias fora de contacto, mas irei escrever como antes fiz, a bordo, e envio-te as mensagens quando tiver acesso à internet. Se ouvires notícias do aparecimento de 3 corpos no meio do Atlântico, já sabes quem são.
Corvos e banshees
Não cheguei a saber os seus nomes, mas o casal francês deixou um profunda impressão. A noção de que a existência precede a essência pareceu-me uma deliciosa reversão do idealismo platónico.
Saída do porto da vila
Pode ser uma canção sobre amor, política e drogas a marcar o final da década (foi lançada em 1969). Apesar do seu possível tom negativo de resignação, e mesmo que fiquemos com o que aquilo que nos calha, isso não significa que não tentemos ter aquilo que queremos.
Liberdade para ser diferente
O outro é a fonte dos nossos medos, o inferno em potência, até permitirmos que deixe de ser um estrangeiro para nós.