Posso repetir três ou quatro vezes e tu vais continuar a não acreditar quando te disser quem são os três conselheiros políticos a bordo: o “Bad Tom” Hobbes, o Johnny Locke e o Jay Jay Russo. De certeza que sabes quem eles são, não sabes?
O capitão explicou-me que o Johnny Locke é amigo do Huygens, que conhecemos em Sagres, e foi o surfista mecânico quem deu a referência do nosso barco. Eu tive uma paixão platónica pelo Johnny Locke quando ele foi à minha faculdade dar uma conferência sobre perceção no ciclo de Ciência Cognitiva. “Locke me up!” foi uma frase que eu e as minhas amigas críamos depois dessa conferência como piropo para um homem inteligente e elegante. Não sabíamos bem onde situá-lo, um pé na academia e o outro nos negócios, esguio num fato bem engomado de presunção graciosa. Aquele nariz foi alvo de muitos comentários entre nós…
O Jay Jay Russo é mais fácil de etiquetar. Ilustre galanteador entre o público feminino, chegou a ter alguma fama na música e, mais ou menos na mesma altura em que a relação do Abelardo e da Heloise dava que falar, tentou namoriscar a irmã mais nova desta, Julie, mas acho que ela o achou demasiado velho e não lhe passou cartucho. Teve de se resignar aos “élans” com senhoras endinheiradas a quem ele dava aulas de ski nos Alpes. Essa é a imagem de marca do Russo, um esquiador selvagem de cabelo longo queimado pela neve na magnífica paisagem da Suíça calvinista.
O “Bad Tom” é o mais velho do bando. Cabelo grisalho sobre os ombros a começar a rarear no centro, sempre vestido com um blusão de cabedal preto com um crânio flamejante bordado nas costas sob a insígnia “Leviathan”, ganhou fama como polémico comentador político, ao mesmo tipo que percorria a Europa de mota. Agora que penso nisso, tanto ele como o Johnny sempre foram lobos solitários, ao passo que o Russo é um disseminador de charme.
Todos eles foram precursores desta moda do “coaching”, desenvolvendo ao mesmo tempo pensamento político que tem influenciado importantes decisores mundiais, nada comparado com aquelas nódoas de poluções intelectuais apelidadas de “comentadores políticos” que vemos na televisão. Três distintos pensadores –– distintos nos dois sentidos, dado que um é realista, outro é reformista e o último é idealista – metidos na mesma jaula navegante é o mesmo que pedir um espetáculo de luta livre. De certeza que não foi mero acaso juntar este trio.
E não demorou muito a estalar a bomba: mal cus e corações deixaram de estar apertadinhos com a aventurosa saída do Porto da Casa, os três tarolas começarem a batucar em dissonância.
«Tudo é mecânico e causal, para cada efeito há uma causa. Os princípios das ciências naturais devem ser aplicados à ciência do homem e da sociedade. A materialidade das coisas é a verdade. São as sensações que causam as ideias, elas não descem dos Alpes a saltitar pela natureza atrás da Mary Poppins a solfejar em tirolês.»
A voz do “Bad Tom” começava a revelar uma certa impaciência. A partir de um mero comentário sobre a natureza dos corvinos tinha começado um debate de risco mortal sobre a natureza humana.
«Diz o homem da mota. Pareces um argumentista norte-americano dessas séries violentas, em que toda a gente tem uma natureza má.», contrapôs o Jay Jay num tom trocista.
«As motas explicam mais do que pensas. A base do equilíbrio das motas é o movimento e os principais motores de quem anda de mota são o desejo e a paixão, guiados pela procura do prazer e a esquiva à dor. Assim somos todos nós nas nossas vidas. Tal como o verdadeiro motard, no nosso estado natural, sem lei nem organização política, nós somos individualistas e não tiramos verdadeiramente prazer da companhia uns dos outros. Pelo contrário, vivemos em discórdia e competimos pelos bens, pela segurança e pela reputação. No estado natural, o homem vive um constante temor da morte violenta e este medo torna-se a emoção mais forte. Sem uma autoridade política, a vida do homem é solitária…»
«Solitária, pobre, sórdida, bruta e curta.», completaram os outros em coro. «Nós conhecemos bem o anúncio», acrescentou Locke, rindo.
«Se conhecem, percebem então porque é preciso uma forte autoridade que impeça o homem de se tornar um filho da anarquia.»
«Filhos da anarquia é o que não faltam por aí.», gracejou Russo.
Mas o tom de voz de Tom tinha acompanhado o olhar a baixar-se para os pés.
«Nas minhas viagens pela Europa, eu ouvi em primeira mão, na Grécia, o relato feito por Tucídides sobre a guerra fratricida que os locais sofreram e não há ninguém que deseje passar por tal.»
Com um movimento de abnegação dos ombros, deu uma última passa no cigarro e preparava-se para atirar a beata borda fora.
«Na, na, na.», interrompeu o capitão. «A beata vai para a latinha das cinzas. A vida pode ser solitária, pobre, sórdida, bruta e curta, mas aqui no oceano não é, de certeza, poluidora.»
«Eu não costumo…»
«Claro que não.», anuiu o capitão.
«É nestas coisas, Tom, que vemos como tu, felizmente, tens uma natureza diferente daquela que apregoas.», observou Russo, dando uma leve palmada no joelho do colega. «O estado natural do homem é a comunhão com a natureza e isso vê-se nas crianças. A nossa natureza é benigna e somos movidos pelo amour de soi com vista à nossa preservação e pela pitié, a compaixão e repulsa pelo sofrimento, não só do nosso, mas também do de outras criaturas.»
«Não foi isso que disseste sobre os pequenos tiranos de Chambéry e de Lyon, que querias benignamente atirar do topo da casa.», atalhou Locke.
«Podemos falar sobre a educação dos petizes noutra altura, Johnny, e muito tenho a dizer sobre as tuas ideias. Mas agora, estamos a falar da natureza humana e da forma como a sociedade a corrompe. Esse é que é, meus caros, o problema, porque a competição pelos bens e pela honra de que o Tom fala é uma corrupção provocada pela sociedade na natureza humana. Só fora da condição natural é que o homem mede as suas necessidades à medida dos outros homens. A propriedade privada e a congregação social humana não são naturais, como muitos querem fazer crer.»
«Aí vem o discurso revolucionário…», suspirou Locke, fazendo o Jay Jay Russo eriçar o pescoço.
«Amigo, não faças essa cara de santo, até porque tu foste evocado numa revolução que mudou muita coisa na configuração geopolítica atual. Podemos falar de propriedade privada noutra altura, mas há uma coisa que a sociedade fez que foi transformar o instinto benigno de preservação numa vaidade, o amour-propre, esse sentimento de que temos de ser mais do que os outros.»
«Vá lá, não sejas radical.»
«Achas? Já viste o que se passa nas redes sociais? É tudo superficial e pouco verídico, o Facebook bem que podia ser o Fakebook. Entrar nas redes sociais é meter o pé num lodaçal de vaidades que mostra o quanto abjetos nos tornámos, sem ousarmos confrontarmo-nos, no meio de tanta filosofia, benevolência, delicadeza e de tão sublimes códigos de moralidade, com o facto de que nada temos para mostrar exceto uma frívola e enganadora aparência, honra sem virtude, razão sem sabedoria, prazer sem felicidade!»
A alteração de humor era visível em toda a expressão do Russo. Ninguém quis dizer nada para amainar os ânimos.
Locke esticou-se para alcançar uma garrafa de um grogue qualquer, deu um trago e passou-a ao Russo.
«Eu não sei como é que vocês conseguem adormecer, eu sentir-me-ia aterrorizado ou revoltado ao ponto de ter insónias. Não quero estar a contra-argumentar, mas um estado natural baseado na razão assente na colaboração humana parece-me mais próximo da realidade.»
«Um clube de gentlemen», troçou o Bad Tom, depois de um longo trago.
«Sim, não há mal nenhum nisso.»
A discussão esmoreceu e em lugar de se atirarem à garganta uns dos outros atiraram-se ao gargalo da garrafa. Enquanto estou a escrever, eles estão a cantar – grasnar, berrar, bramir – e não tardará muito estarão a regurgitar…
Vale que o mar está um pouco mais calmo e é fácil uma pessoa inclinar-se borda fora e não sujar o convés. Fomos também afortunados na nossa saída do Corvo. Se vires o vídeo que te envio, vais ver que, às vezes, o Porto da Casa nada tem de doméstico.
J. J. Russo
Um fervoroso suíço, defensor irredutível da sua Genebra natal. Um homem de grandes paixões, tornadas públicas nas suas autobiografias, parece viver sempre num de dois extremos, entre o amor e o ódio.
Johnny Locky
A personificação da elegância e da perspicácia de um “english gentleman” com um humor corrosivo. Antes de se tornar um guru político com imenso sucesso nos Estados Unidos, Johnny Locky deu cartas na área do pensamento científico
Bad Tom Hobbes
Quando o grogue o deixa mais solto, relaxa ao ponto de contar histórias como a do seu nascimento prematuro quando a mãe se acagaçou com a horda de adeptos do Barcelona que espalharam o caos em Inglaterra durante a final da Taça dos Campeões Europeus. Sóbrio, torna-se defensivo e até arrogante.