Rumo à Nova Escócia VI

Jun 20, 2024

Ontem estive perto de cometer inadvertidamente um crime e tudo por culpa do capitão. Depois da experiência psicadélica do submarino amarelo, continuava a sentir-me um pouco tonta e, para evitar uma indisposição ainda maior, decidi deitar-me e descansar um pouco. Acordei com o dia a raiar, espantada por o capitão não me ter acordado para fazer um quarto à noite, e levantei-me para me preparar para o dia. Estava no salão a beber água quando senti um movimento atrás de mim e uma mão sobre a anca.

«Eh, bela!»

Todos os alarmes dispararam no meu corpo e, confirmando num relance que não era o capitão quem me abordava, puxei a tábua de cortar do suporte por cima do fogão e dei com ela na testa do intruso com toda a força, deixando-o de joelhos.

«Não na cabeça!!», gritou o capitão, descendo do convés.

O desconhecido ainda estava consciente e praguejava entre os dentes, a tentar levantar-se sem sucesso até o capitão o pousar no assento grande do salão.

«Como é que podia adivinhar que estava outro tripulante a bordo?», justifiquei ao ver o olhar do capitão.

«Eu queria fazer as apresentações mais tarde, quando o nosso convidado estivesse acordado. Mas o erro foi meu, devia tê-la avisado que tínhamos recebido um novo passageiro do submarino do capitão Nemo. Mas mais vale tarde do que nunca. Caríssima, este é o conhecido Vacchia Meli e vai connosco até à Nova Escócia.»

Quando o desconhecido ergueu a cara para mostrar um sorriso de lábios cerrados sem expressividade, reconheci de imediato a fronha do famoso guru político do Silvio Berlusconi.

«Não estava à espera de que o capitão deixasse vermes como este meterem os cotos a bordo», quis dizer, mas sem sucesso. Afinal, o barco não era meu e, em rigor, eu era um tripulante como os restantes.

«Vejo que está surpreendida, mas não é aquilo que pensa. Aqui o Vacchia vai a caminho dos States para dar um novo rumo à sua carreira.», disse o capitão, dando umas palmadas leves no ombro do italiano.

«Não me parece que haja falta de estrume para alimentar certas ideias políticas americanas.»

«Eu não me expliquei bem. Ele vai mudar de carreira.»

Mantive a expressão de desprezo. «Qualquer mudança será só para satisfazer qualquer necessidade imediata de dinheiro ou de poder.», disse outra vez para mim própria.

Vacchia Meli fixou de novo o seu sorriso cerrado em mim e depois, inchando ligeiramente o peito com ar, disse com a crista acachapada onde a tábua o tinha atingido.

«Eu vou ser treinador de wrestling.»

Olhei para um e para o outro a tentar perceber se tudo aquilo era um gozo e percebi que era a sério. O capitão levou o Vacchia para o exterior, desceu para preparar café e depois, vendo-me sentada no salão, fez-me sinal com a cabeça para me juntar a eles. Subi relutantemente, a tentar reduzir a minha irritação com inspirações controladas, e sentei-me junto ao leme, a uma distância segura do italiano.

«Diga-nos lá, amigo Vecchia, o que o levou a virar-se para o wrestling?», perguntou o capitão, recostado na popa, de café na mão, o piloto automático a controlar o leme numa ondulação tranquila.

«Ah, o velho motivo de sempre. Após todos estes anos a batalhar na cena política, percebi que o verdadeiro palco para alcançar a honra e a glória é o ringue do wrestling. Embora a minha virtù seja ainda pujante,» – e, ao dizer isto, voltou-se para mim! – «já não estou no meu primor físico. Além disso, penso que serei de mais valor a orientar os outros atletas.»

«Ah, vai ser treinador de wrestling! E o que é que tem para lhes oferecer?», perguntou o capitão com ar atento.

«Novos estilos de combate, por exemplo. Tradicionalmente, os lutadores assumem um papel e tentam moldar as circunstâncias à sua personalidade, mas eu advogo o inverso. Por exemplo, devem adotar o estilo do leão quando querem intimidar o adversário, mas reverter para o estilo da raposa quando o querem atrair para uma armadilha.»

Pareceu-me familiar esta referência.

«O importante é mantenere lo stato.», prosseguiu. «Qualquer atleta que deseje manter a sua posição no ranking tem de aprender que os fins justificam os meios. E as regras do wrestling convidam a explorar todos os recursos no ringue. Todas as malevolências são permitidas desde que o objetivo seja a estabilidade, quer do atleta no combate, quer do próprio espetáculo.»

«Do próprio espetáculo?», repetiu o capitão sorridente. Parecia estar a tirar divertir-se com a conversa.

«Sim. Estou a referir-me à multidão que sustenta o wrestling. Embora seja permitido ao atleta fazer tudo dentro do ringue, ele tem de ser visto pelos espetadores como tendo boas qualidade, como compaixão e integridade, sem revelar que é, na verdade, um grande mentiroso e hipócrita.»

«Isto é o que ele defende que os políticos devem ser!», interrompi, olhando para o capitão, que me interrompeu, sossegando-me com um gesto da mão.

«A populaça é tão ingénua e está tão dominada pelas suas necessidades imediatas que um hábil impostor encontra sempre público pronto a se deixar enganar.», prosseguiu o Vacchia, visivelmente entusiasmado. «Eles sabem que o que veem no palco é um circo, mas abraçam a fantochada com tanto entusiasmo que são capazes de tudo para defender os seus ídolos. O importante é manter as mãos fora das suas posses, ou das suas mulheres.» – virou-se novamente para mim com um sorriso sinistro. «Os homens esquecem mais cedo a morte de um pai do que o dinheiro perdido no bilhete de um mau espetáculo de wrestling.»

O capitão sorria visivelmente satisfeito.

«Eu vou trazer a virtude ao wrestling, a verdadeira virtù.» Dizendo isto, espetou o “digitus impudicus” para o céu. «Não podemos deixar a luta ao sabor do destino. A fortuna favorece os bravos, a sorte sorri aos audazes.» Fechou os punhos de braços arqueados.

«Os brutos e os incapazes» retorqui para mim própria.

«A Fortuna é uma mulher que tem de ser domada à força e gosta daqueles que a seguram pelas rédeas.», vociferou.

Eu fervia cada vez mais; o capitão continuava focado no discurso, como se medisse cada palavra.

«E mais! Eu quero trazer um elemento religioso ao wrestling! A religião pode ser usada para inspirar e aterrorizar a populaça. Tal como os generais romanos anunciavam que os augúrios eram favoráveis à vitória, os lutadores devem aceitar e ampliar tudo o que é religioso. Mesmo sabendo que a religião é uma grande peta, devem afirmar que Deus, seja ele qual for, está com eles!» Levantou-se elétrico, um dínamo modernista fascizoide, com os braços abertos no ar. E ao mesmo tempo que o capitão se movia para o fazer sentar, a retranca moveu-se para meia nau e atingiu o Vecchia na cabeça, deixando-o inconsciente.

«Não na cabeça!», gritou o capitão, socorrendo-o. «Outra vez?», suspirou, olhando-me por cima do ombro.

«Deve ter sido um salto de vento.», sugeri.

«Isso ou a mão de Deus empurrou o leme», gracejou o capitão.

Regressei do salão com gelo, enquanto o capitão acomodava o Vecchia da melhor forma, a recuperar os sentidos lentamente.

«Você tem noção de que tudo aquilo que ele disse é uma adaptação rasca do manual secreto que foi revelado e publicado na imprensa.», protestei.

«Eu não publiquei nada. Era uma carta de motivação que eu escrevi para um emprego.», murmurou.

«Shhh, tente não falar.», aconselhou o capitão.

«Eram outros tempos. Os manuais políticos clássicos – o Quique, o Soneca, – todos diziam para ser moral e seguir a virtude. E contudo, a minha cidade, a minha república, a minha terra era devassada por todas as potências estrangeiras.»

«Calma, homem. Deixe lá isso. Em breve, está no mundo do wrestling.», sossegou o capitão. E depois sussurrou, piscando o olho para mim. «Antes aí do que na política. Faz menos danos.» O Vecchia, ainda combalido, desceu para o interior, aparado pelo capitão. «Por favor, tome conta do leme. Estamos a aproximar-nos da costa e esta é uma zona de mudanças súbitas de vento. Já volto para falarmos sobre o plano de viagem. Conto chegarmos amanhã ao Canadá.»

Fiquei a olhar para ambos, a tentar fazer sentido do número que tinha visto. Mesmo agora, enquanto te escrevo, continuo a refletir sobre o que se passou. O que é que um figurão como o Vecchia Meli faz a meter-se numa carreira como treinador de wrestling? O que é que ele percebe daquilo? Ele era o mesmo e não era o mesmo, “same same, but different”, como dizem na Índia. «E a excessiva preocupação com a cabeça? Eu diria mesmo “off with his head!!» O que lhe terá acontecido no submarino do capitão Nemo? Será que fizeram uma lobotomia ao Vecchia? E estarão a fazer o mesmo aos outros três que deixámos com ele?

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Avisos à navegação

O conteúdo desta publicação é ficcional. As personagens apresentadas são ficcionalizações de figuras reais, pelo que as leitoras não devem assumir que os dados apresentados correspondem a factos reais. O objetivo didático é tentar transmitir algumas das  suas ideias e dos seus conceitos num contexto ficcionalizado e lúdico.